PÁSCOA

ARTIGO

PÁSCOA
Por V. A. Duarte, Pastor batista, escritor, professor, mestre em divindade

“Porque o SENHOR passará para ferir os egípcios; quando vir, porém, o sangue na verga da porta e em ambas as ombreiras, passará o SENHOR aquela porta e não permitirá ao Destruidor que entre em vossas casas, para vos ferir.” Êxodo 12.23

A Páscoa é uma festa judaica cujo nome vem da palavra hebraica pêssach, que significa “passar por cima” ou “passar sobre”. Ela remete ao episódio da Décima Praga, quando o destruidor “passou por cima” das casas dos israelitas no Egito e não entrou em nenhuma delas para matar os primogênitos. Esse livramento ocorreu porque os israelitas sacrificaram um cordeiro, conforme a ordem de Moisés, e aspergiram o sangue nas vergas e ombreiras das portas; ao ver o sangue, o juízo de Deus passou por cima daquela casa. Naquela mesma noite, o povo saiu livre do Egito, após mais de 400 anos de escravidão, e Moisés instituiu a festa da Páscoa como memorial desse evento.

Conhecendo a narrativa em mais detalhes. Em Êxodo 12.1‑3, o Senhor diz a Moisés e a Arão: este mês será o principal dos meses, o primeiro do ano. Cada família tomará um cordeiro conforme a casa dos pais, “um cordeiro para cada família”.

Se a família fosse pequena? (Êxodo 12.4). Se o grupo familiar fosse pequeno para consumir um cordeiro inteiro, deveria convidar o vizinho mais próximo, calculando‑se a quantidade de carne conforme o que cada um pudesse comer.

Como deveria ser o cordeiro? (Êxodo 12.5‑6). O cordeiro deveria ser sem defeito, macho de um ano, podendo ser um cordeiro ou cabrito. Ele seria guardado até o décimo quarto dia do mês e imolado ao crepúsculo pelo ajuntamento de Israel. É interessante notar a progressão bíblica: em Abraão, o cordeiro substitui uma pessoa; em Êxodo, o cordeiro substitui uma família; no Dia da Expiação (Yom Kippur), o sacrifício substitui uma nação. No Novo Testamento, o Cordeiro de Deus substitui a todos — embora o efeito salvífico alcance somente “todos os que creem”.

O que foi feito com o sangue? (Êxodo 12.7‑8). O sangue foi colocado nas ombreiras e na verga da porta das casas em que o cordeiro fosse comido. A carne era assada no fogo e consumida com pães sem fermento (pães asmos) e ervas amargas.

Qual o propósito do sangue? (Êxodo 12.12‑13). Naquela noite, Deus passaria pela terra do Egito, ferindo todos os primogênitos, humanos e animais, e executando juízo sobre os deuses do Egito. O sangue nas portas seria um sinal: quando o Senhor o visse, “passaria” (pêssach) por aquelas casas, e não haveria praga destruidora entre os israelitas. Esse sinal apontava para o sangue de Jesus, o Cordeiro de Deus, que purifica e protege os crentes.

O que a nação deveria fazer após o livramento? (Êxodo 12.14‑15). Deus ordenou que aquele dia fosse memorial e solenidade perpétua. O povo deveria comer pães asmos por sete dias, tirando o fermento de casa. Qualquer um que comesse alimento levedado seria eliminado da comunidade. O fermento simboliza, em geral, o pecado; por isso, pães asmos apontam para a santificação — o pecado deve ser deixado para trás na vida daqueles que são povo de Deus.

Que verdades aprendemos? 1. A Páscoa judaica tornou‑se memorial da libertação da escravidão no Egito (“Êxodo”); 2. Também assumiu o sentido de expiação: as casas marcadas pelo sangue foram poupadas da ira divina; 3. E trouxe o sentido de santificação: a união com a festa dos pães asmos lembra a purificação e a vida nova. Resumindo: a Páscoa remete a libertação, expiação e santificação. Esse memorial foi dado para instruir as gerações futuras. Em Êxodo 12.24‑27 ACF lemos:  ²⁴ Portanto guardai isto por estatuto para vós, e para vossos filhos para sempre.²⁵ E acontecerá que, quando entrardes na terra que o Senhor vos dará, como tem dito, guardareis este culto. ²⁶ E acontecerá que, quando vossos filhos vos disserem: Que culto é este? ²⁷ Então direis: Este é o sacrifício da páscoa ao Senhor, que passou as casas dos filhos de Israel no Egito, quando feriu aos egípcios, e livrou as nossas casas. Então o povo inclinou-se, e adorou.  Imaginemos uma criança perguntando, ao ver o cordeiro sendo sacrificado: “Pai, que rito é este?” A resposta seria: “Filho, você só está vivo por causa do sangue do cordeiro. A Páscoa é isso: Deus passou por cima e nos livrou de sua ira.”

A Páscoa ao longo da história. A Páscoa foi celebrada em diversos momentos da história de Israel: 1. No Egito (Êxodo 12); 2. No deserto do Sinai (Números 9.2); 3. Na chegada à Terra Prometida (Josué 5.10); 4. No período dos reis, como em Josias (2 Crônicas 35.18); 5. Após o retorno do exílio babilônico (Esdras 6.19). Desde a saída do Egito até o período pós‑exílico, o povo de Israel celebrou a Páscoa, mantendo viva a memória do livramento.  Antes de adentrarmos o Novo Testamento, uma curiosidade: os Salmos 113–118 tornaram‑se conhecidos como o “Hallel” (louvor egípcio), ligado à libertação de Israel. Na Páscoa, os Salmos 113 e 114 eram entoados antes da refeição, e os Salmos 115–118, depois dela — como parece ter acontecido com Jesus e seus discípulos na última Ceia (Mateus 26.30).

A Páscoa no Novo Testamento. Jesus e os discípulos eram judeus e observavam a festa. A Bíblia do Novo Testamento une as expressões “páscoa” e “pães asmos” em uma única referência: “Estava próxima a Festa dos Pães Asmos, chamada Páscoas” (Lucas 22.1). O sentido de libertação, expiação e santificação permanece, mas agora se cumpre em Cristo. Na última Ceia, porém, o caráter do memorial muda. Em Mateus 26.26‑29, lemos: “Tomai, comei; isto é o meu corpo.” “Bebei dele todos; pois isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados.” Assim, o memorial da Páscoa foi substituído pela Ceia do Senhor, que recebe o pão e o cálice como símbolos do corpo e do sangue de Cristo.

As ordenanças do Antigo Testamento são ressignificadas no Novo e a circuncisão é compreendida como circuncisão espiritual do coração, possível somente pela fé em Jesus enquanto que a Páscoa cede lugar à Ceia do Senhor, que lembra a morte e a nova aliança em Cristo. Quando o Cordeiro Pascal, Jesus, foi sacrificado, a festa cerimonial cumpriu sua finalidade tipológica. Os cristãos, portanto, celebram a Páscoa não como festa judaica, mas como lembrança da vitória de Cristo que: 1. Nos libertou da escravidão do pecado; 2. Expia nossos pecados pelo seu sangue; 3. Pelo Espírito Santo nos santifica para andarmos em “novidade de vida”.

Podemos usar a data da Páscoa  redirecionar a atenção do mundo (coelhos, ovos de chocolate) para o verdadeiro sentido da Páscoa — Cristo, nosso Cordeiro Pascal de modo que se alguém perguntar: “O que é a Páscoa cristã?”, podemos dizer: 1. No Antigo Testamento, pêssach significa “passar por cima”: Deus poupou as casas marcadas pelo sangue do cordeiro; 2. No Novo Testamento, Jesus é o Cordeiro Pascal cujo sangue “passa por cima” de todos os que creem, libertando‑os, expiando seus pecados e santificando seus corações.

Hoje, para muitos, a Páscoa é apenas um feriado de coelhos e chocolates, esvaziada de seu verdadeiro sentido. Mas para nós, crentes, a Páscoa continua sendo a data do Filho de Deus: sua morte, sua ressurreição e sua vitória sobre o pecado e a morte. Que Jesus, nossa Páscoa, seja muito mais do que uma lembrança, que seja libertação em nossa vida, expiação em nossa consciência e santificação em nossas atitudes. Que cada um de nós responda: “O que Jesus como minha Páscoa significa para mim hoje?”, e viva essa Páscoa todo dia, em casa, no trabalho, na escola e em todas as nossas relações.